domingo, 25 de outubro de 2009

Saberes e Mandarim











Outro dia uma pessoa querendo mostrar o quanto ela era melhor do que eu me disse que aos dezesseis anos havia ido morar na Alemanha, que conhecia Paris, Grécia, Holanda, enfim boa parte da Europa e América do Norte. Essa pessoa também me mostrou o quanto sabia de Física, de Arte e muitos outros temas, ficou escandalizada por eu não saber onde nascia o Rio São Francisco. Ouvi por um bom tempo ela discorrer sobre o quanto sua vida havia sido rica e bem aproveitada.
Então resolvi fazer algumas perguntas a essa criatura: Você conhece Bagé, Uruguaiana, Cacequi, Rosário do Sul? Sabe onde nasce o Rio Vacacaí, Rio dos Sinos e o Rio Gravataí? Sabe quem escreveu Casa Grande e Senzala? Já leu a Pedagogia do Oprimido e sabe quem é o seu autor? Já ouviu falar de um movimento que ocorreu na educação chamado Escola Nova e sabe o que preconizava? Já ouviu falar de Jean Piaget e sabe o que são esquemas mentais segundo ele?
Não, essa pessoa não sabia responder nenhuma dessas perguntas e então eu disse: Pois é você sabe muitas coisas, mas não tudo, você conhece coisas que eu desconheço e eu sei de coisas que você desconhece, isso é que é bacana na convivência com o outro, a troca, pois um acaba enriquecendo o outro com os seus saberes. Confesso que meu argumento não adiantou muito pois essa pessoa continuou afirmando que o que ela sabia era muito mais importante, que os meus saberes não valiam nada. Desisti do diálogo, pois entendi que não era o momento e que infelizmente tem coisas que não é nessa passagem pela Terra que se aprende que são necessárias algumas existências ainda para começar a aprender.
Então lembrei de uma historinha que li uma vez sobre um menino que ao ser alfabetizado ficou encantado em descobrir as palavras, ler para ele estava sendo fantástico e então ao chegar em casa foi correndo para a cozinha contar para a cozinheira que trabalhava em sua casa o quanto ele era inteligente e mostrou um livro a ela, pedindo que lesse um texto, ela afirmou que não sabia ler. O menino então a humilhou-a, chamando-a de burra, como era possível que na sua idade não soubesse ler? Nesse instante adentrava na cozinha o pai do menino que o convidou para ir até a biblioteca, chegando lá pegou um livro e pediu que o menino lesse. O garoto ficou olhando para os rabiscos e disse que não entendia nada daquilo, então o pai argumentou: esse livro está escrito em Mandarim, você não deveria ter humilhado a cozinheira pois você não sabe tudo, ela tem saberes que você não tem. Ao longo de sua vida lembre-se que você não sabe ler Mandarim. O menino cresceu, estudou, aprendeu muitas coisas, e sempre que se sentia inflado pelos seus saberes, começando a se achar muito bom, lembrava do seu velho pai falando de que ele não sabia ler Mandarim.
Acredito que essa é uma lição que precisamos aprender: valorizar o conhecimento do outro, por mais simples que ele possa parecer e usar o conhecimento que detemos para promover o bem, a paz, a concórdia e sempre que estivermos começando a nos achar muito bons que lembremos que ainda não sabemos ler Mandarim.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Eu me considero Espírita


Eu me considero espírita. Demorei para me assumir como tal. Tinha o entendimento de que devido a tantas imperfeições, tantos defeitos e outras coisitas mais eu não tinha o direito de me definir como tal.
Mas com o passar do tempo e como a vida nunca deixa de nos ensinar, hoje consigo entender que com todas as falhas que tenho, o que importa mesmo é que eu possa percebê-las e procurar não repeti-las e se possível corrigi-las no mesmo instante.
Entre as muitas imperfeições que tenho, uma delas é ser muito rápida no volante, tenho o péssimo hábito de acelerar mais do que o permitido por lei, e como ando o dia inteiro no trânsito sempre me estresso muito. Pois bem, com a ajuda do meu anjo de guarda (que deve sofrer um bocado com uma protegida tão louca) estou conseguindo melhorar essa situação.
Outro dia, distraída troquei de faixa de trânsito sem sinalizar, só ouvi a pisada no freio do coitado que estava atrás de mim e que estacionou ao meu lado na sinaleira preparado para me xingar. Prontamente, baixei o meu vidro e falei: - Moço me desculpe, eu estava distraída! Ele sorriu e disse “não foi nada”.
Hoje, novamente acelerada fui tentar passar o sinal antes de fechar e acabei parando em cima da faixa de pedestres, de novo baixei o vidro e pedi desculpas para o Sr. que precisava atravessar na faixa e teve que passar pelo meio dos carros.
Acredito ter evitado que duas pessoa saíssem com raiva de mim e desejando que eu me arrebentasse no próximo poste.
Também tenho conseguido evitar briguinhas e discussões do dia-a-dia por entender que não tenho que estar sempre certa, que erro, que o outro tem um ponto de vista diferente do meu, ou que ele ainda não está preparado para determinadas situações.
Porque estou escrevendo isso? Porque estou feliz comigo, porque acho que estou conseguindo engatinhar no caminho da evolução. Estou sendo orgulhosa? Até pode, mas acredito sinceramente que esse não é um orgulho que possa prejudicar-me ou a outrem.
Tenho visto muitos espíritas falando “esse livro o João tinha que ler...”, ou “essa palestra servia direitinho para a Maria...” Por que? Será que já aprendi tudo, já atingi o auge da perfeição que esse livro ou essa palestra não servem para mim? Cadê a humildade das Bem Aventuranças?
Provavelmente nem sempre vou estar com essa tranqüilidade toda e vou acabar vez ou outra “metendo os pés pelas mãos” como se fala popularmente, mas como eu me considero Espírita tenho certeza que será com menos freqüência e que saberei parar e tentar consertar o estrago que por ventura venha a cometer.
Essa modesta reflexão também serve para tantos que tem medo de se dizerem espíritas por não se considerarem dignos de tal. Se pudesse olhar nos olhos destes nesse instante eu diria: “Avante amigo, não se preocupe tanto com suas falhas, não esqueça que o nosso Pai maior, não aponta o dedo para nenhum de seus filhos, ele os abraça e acompanha em sua jornada e se Ele não o julga e muito menos condena, seja mais tolerante consigo mesmo, se ame mais e Seja Feliz, é para isso que estamos aqui”.